Do Guatambu e de Como a Vida Quer Viver. Cenas da Cantareira
Valdemar Augusto Angerami - Camon
Para Evandro - Formiga, a criatura mais adorável concebida
pela mãe-Terra
A coruja
pia no entardecer
e se mistura à neblina...
O esquilo corre entre as árvores...
saltando rumo ao infinito
no esgalhar da vida...
O martim-pescador
busca as aroeiras
para o descanso na noite...
A arara voa para os galhos dos araribás...
e a jaguatirica caminha solta pela mata
encontrando significado no reflorestamento da vida...
O bugio
pula na embaúna...
e traz sentido para o verde da floresta...
e o tucano nas galhas do guatambu
canta pelo amor e pela paz...
A cigarra canta alegremente...
e anuncia o verão
para os habitantes da mata...
A sábia
faz seu ninho
juntos as galhas do jacarandá...
e se faz guardiã dos ovos da procriação...
A coral se aninha nas folhas secas da cidreira...
guardando-se para o amanhã...
À
noite enluarada na montanha...
na praia...na cidade...em Ouro Preto...
em João Pessoa...em Natal...em São Paulo...
As flores da margarida...flores brancas...
flores amarelas...alaranjadas...
querendo viver o esplendor de florir...
O cão
uivando na noite de lua cheia...
sinalizando um tempo...uma nova estação...
uma nova dimensão na vida, nos sonhos e no anoitecer...
A neblina nublando o caminho, a montanha e a ilusão do
amor...
O servo
correndo com destreza
no emaranhado da floresta...
correndo...saltando...
e vivendo sua plenitude existencial.
A floresta bosqueada
com infinitas espécies de plantas,
árvores, arbustos e folhagens...
O oxigênio da vida, do planeta e dos seres humanos...
As
cores do arco-íris anunciando
o fim da tempestade...colorindo o céu
com as cores mais lindas e perfeitas
na harmonia celestial...
cores, luz e amor...
A cachoeira
escondida no meio da floresta
e que dá um significado maior para o rio
onde despeja suas águas...iluminando cada
filete de água com uma nova aura de vida...
A florada da hortênsia na primavera...
flores azuis...flores brancas...flores...
flores...flores...flores...
A lagarta
que se transforma
em borboleta e voa em direção
ao azul... na perspectiva de um novo
desdobramento da existência...
O vaga-lume pontuando com sua luz
alguns pedacinhos da escuridão da floresta...
A chuva que deságua na floresta
e alimenta seus habitantes com
a própria energia da vida...do gotejar,
da esperança e do equilíbrio harmonioso
com os sonhos e com a vida...
A samambaia
crescendo no meio do desbarrancado
da floresta...destacando-se de outras folhagens...
e fazendo o humano mais humano...
e mais sensível com os fenômenos da natureza...
A lontra
cavando um buraco para habitação
e proteção no seio da mata...mostrando a vida
na simplicidade dos gestos triviais...
O javali correndo assustado do raio
no meio da tempestade...buscando abrigo e se
enternecendo com o amanhecer...
O bicho
preguiça balançando entre
as árvores e fazendo no cambará
seu ninho de proteção...se resguardando
dos perigos da floresta...da cadeia predatória
que existe na mata...
As
galhas da chifléia buscando o ar...
a luz no meio de outras folhagens...
crescendo para a luz...buscando a luz...
sendo a própria luz...
O jacarandá
mimoso azulando a floresta
na primavera e se destacando entre as
folhagens de outras árvores...
azulando o céu azul e
a leveza da alma...
O antúrio
crescendo no tronco do ipê-roxo...
envolvendo-o e dando um toque
de encantamento ao
seu próprio encanto...
O amarelo.
Na primavera luzindo
na florada do ipê-amarelo...no verão no
amarelo-ouro da cássia imperial...no
outono na florada da cássia aleluia...e
no inverno o amarelo exuberante do girassol...
E o
vermelho. Na primavera sou o vermelho luz
dos hibiscos...no verão sou o vermelho esplendor
das flores do flamboyant...no outono sou o vermelho
alaranjado da espatódea...e no inverno a exuberância
do vermelho das flores da suinã...
O roxo. No outono o roxo delicadeza das
flores das quaresmeiras...
no inverno o esplendor da florada
do ipê-roxo...maravilhosamente esplendoroso...
Na primeira o encantamento das
flores azul-roxeadas do jacarandá-mimoso...
e no verão a graciosidade do roxo
esbranquiçado do Manacá da serra. E do
roxo azulado das hortênsias...
E do
branco...
Na primavera o charme das
flores do ipê-branco...
No verão a suntuosidade no florir da figueira...
No outono a pureza do branco
exibida nas flores do lírio do brejo...
e no inverno resplandecendo
na harmonia das azaléias
Da
formiga construindo seu canto
na terra...ensinando ao homem sobre
a procedência do elemento orgânico...
e sobre a socialização da vida em harmonia...
da aranha que tece fio a fio sua imponência
no azul do firmamento...
E da
copaíba exibindo as flores
vermelhas mais lindas que a percepção
humana pode apreender a codificar...
florada exuberante do inverno...
dos sonhos do que o imaginário
pode alcançar flores tão sublimes...
A recriação
da vida, na luz do dia...
na escuridão da noite...na época do entardecer...
no encanto do amanhecer...e de como a vida quer viver...
Serra da Cantareira, numa
manhã de Primavera...
Obs: Essa poesia está publicada na obra ANGERAMI
, V. A.(org). A Prática da Psicoterapia. São Paulo,
Thomson, 2003 e teve os direitos cedidos pelo autor para veiculação
pelo Instituto Guatambu de Cultura-Canto das Águas.